A aranha e a agenda

23 jan

O ser humano é incrível. É fascinante ver o quão capazes somos de realizar maravilhas da engenharia e ainda assim sofrermos o diabo quando aquela impressora do escritório faz o que as impressoras normalmente mais fazem de melhor: não funcionar.

Desde sempre passamos por testes de sobrevivência e continuamos aqui. Usando de tudo o que temos para sobreviver a grandes catástrofes, a grandes predadores e ao Windows Vista, somos hoje os donos de nosso próprio mundo e estamos tendo o privilégio de criar a raça superior que irá nos fatiar sem dó quando chegar a hora da raça humana ser destruída.

Quando desenvolvedores cometerem o mesmo erro de Tony Stark e criarem uma Inteligência Artificial superior e então ela começar a se replicar e máquinas com habilidades de um samurai saírem nas ruas com suas Katanas fatiando mendigos, meu nome será lembrado e pelos 12 segundos que os humanos conseguirem sobreviver ao ataque, as pessoas pensarão em mim com esperança.

Depois todos estaremos mortos e esquecidos. Mas mesmo assim, todos saberão que um dia fui exposto a um grande perigo, lutei pela minha vida e sobrevivi.

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A história se tornou lenda, a lenda se tornou mito…

Era um daqueles dias que você não espera nada demais (esses são os dias mais perigosos). Estava sentado na frente do computador, muito concentrado em simular estar concentrado no trabalho e sozinho na sala.

Ao menos, era o que eu pensava.

Meus sentidos apurados me avisaram que eu estava em uma situação de risco e que se não quisesse ter um destino pior que o do garoto do vídeo do “Pintinho Piu”, deveria me preparar.

Entrei em modo Batalha e passei a me concentrar no meu lado esquerdo, já que as coordenadas que meus sentidos tinham me passado indicavam que o perigo vinha dali. Olhei e nada no mundo teria me preparado para o que vi.

surprise, mothafocka

surprise, mothafocka

 

Uma aranha estava pendurada do meu lado.

Não sei quais eram as motivações dela, não sei quem a enviou e não sei o comprimento da teia que ela precisou fazer para descer lá do teto até mim, mas ela estava ali e eu precisava lidar com essa situação de uma maneira muito adulta.

Em 0,3 segundos eu estava de pé e com metros de distância entre mim e a aranha. Respirei fundo, avaliei a situação e pensei no que faria em seguida. Eu estava sozinho na sala, então não teria que me preocupar em explicar a alguém o que estava acontecendo e em meio a essa explicação a aranha aproveitar meu momento desconcentrado e me atacar (vários personagens já morreram por dar essa bobeira). Só precisava me focar em resolver aquilo para poder voltar para a minha mesa.

Não me orgulho disso, mas percebi que precisava me livrar daquela aranha de uma vez por todas. Era isso ou ficar o resto da vida achando que a qualquer momento ela voltaria para terminar o serviço. Eu não teria mais nenhum momento de paz.

OK, eu já sabia o que precisava ser feito, agora precisava decidir como fazer isso.

Olhei ao redor procurando a resposta e meu cérebro bem treinado em questões estratégicas de tanto jogar Age Of Empires me deu uma resposta que ao mesmo tempo era fácil e desafiadora.

Fui até a mesa de um colega de trabalho, peguei uma agenda que ela usa para descrever o quão sem emoção são os dias dele, me encaminhei até minha mesa e parei perto de onde a aranha ainda estava pendurada. Eu estando de pé, ela estava pendurada mais ou menos na altura do meu peito.

Nesse momento, ela começou a subir. Os sentidos dela devem a ter avisado sobre o perigo que ela estava correndo. Foi um momento crucial para mim. Mais uma vez tive a chance de deixar ela escapar. Optei por não fazer. Prefiro não passar a vida olhando por cima do ombro em busca de um antigo inimigo.

Nesse momento, ela, surpreendentemente rápida, já tinha subido uma boa altura e estava por cima da minha cabeça. E então, fiz o que precisava ser feito.

Fechei os olhos, com a mão esquerda toquei no Mjölnir que carrego no pescoço e fiz uma prece rápida a Thor. Com a mão direita, abri a agenda e me preparei para tomar impulso no chão. Agora com as duas mãos na agenda, tomei impulso, pulei em direção a aranha e seguindo as orientações da minha mente acostumada a fazer contas nas aulas de Cálculo, fechei a agenda no exato momento em que a aranha estava entre as páginas.

foi algo assim

foi algo assim

 

Jamais me esquecerei do som. É um som que se estivesse no meu HD, eu nomearia o arquivo como “Estou_Em_Paz.mp3″ e o ouviria todo dia antes de dormir. Talvez tenha no Spotify.

Já de volta ao chão e com a missão cumprida, olhei fixamente para a agenda fechada e tomei a decisão de não abrir ela em busca da aranha morta. Foi por questão de respeito. Não preciso tão avidamente ver o cadáver de um inimigo. Saber que não preciso mais me preocupar com ele já me basta.

Joguei a agenda na mesa do cara e nunca disse a ele o que aconteceu.