A cobertura internética de mortes famosas

6 mar

Hoje, dia 6 de Março de 2013 foi um dia daqueles nessa internet que tanto amo. Em menos de 24 horas, tivemos duas mortes famosas.

A primeira, foi do até então presidente venezuelano, Hugo Chávez. A notícia caiu em minhas mãos ainda no começo da noite do dia 5. A segunda morte, não menos polêmica, foi a do vocalista do Charlie Brown Jr, o Chorão, encontrado morto em seu próprio apartamento. Essa segunda morte, pegou muitos twitteiros (eu neles) ainda dormindo.

Por mais triste e doloroso que seja, as pessoas morrem e pouco se pode fazer quanto a isso. Já a algum tempo, a galera da internet faz uma cobertura completa de mortes famosas. O auge, como não poderia deixar de ser, foi com o grande Oscar Niemeyer. Fiz muitos tweets sobre o grande mestre.

Ao acordar no dia de hoje, de maneira mecânica, passei a mão por debaixo de travesseiro. Ao encostar no celular, o puxo e em 3 segundos já estou conectado por mais um dia no Twitter. Não precisei ler 5 tweets para saber o que estava acontecendo e perceber que horas importantes tinham sido gastas ao descansar meu corpo. O Chorão estava morto e os deuses da internet solicitavam minha ajuda.

sim, os beatles são os deuses da internet

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Eu nunca tinha passado por isso. Nunca tinha presenciado duas mortes famosas em tão curto espaço de tempo. Meus dedos ainda estavam dormentes dos tantos tweets na cobertura obituária do presidente Hugo Chávez e já estavam trabalhando outra vez na cobertura dedicada ao Chorão.

Piadas, ameaças, perguntas, acusações, fotos, videos e explosão de raivas. É isso que mortes causam na internet. O corpo do cantor ainda estava esfriando e nego já tinha montagens, posts e homenagens prontas. Enquanto o corpo ainda nem tinha sido retirado do apartamento em direção ao IML, os mais ágeis e cruéis já tinham feito fanpages no Facebook com a notícia da morte dele de título. As primeiras e mais bem montadas fanpages já tinham garantidos seus milhares de seguidores. É isso que mortes causam na internet.

Por estar dormindo e pegar a coisa toda já pela metade, não pude participar ativamente e talvez por isso, pude prestar atenção em outras coisas. A quantidade de fãs do Chorão multiplicou cerca de 17 vezes em suas primeiras 12 horas de morte. Nem ele deveria saber que era tão querido assim. Mas isso é fácil de se entender, afinal de contas, qualquer um que compartilhe uma imagem com “LUTO Chorão”, “RIPCHorão” ou a letra de uma de suas músicas pôde se considerar fã do cara. Até ontem eu achava que o Chorão deveria ter uns 12 fãs, no máximo. Estou surpreso.

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No meio da tarde, a Polícia Forense do Twitter já tinha encontrado e localizado todos os 14 possíveis assassinos, provado que o pó branco encontrado no apartamente era fermento para uma torta de frango e já tinham ligado o Chorão ao afastamento do Papa Bento XVI e até aos Illuminatis. Eu amo a internet.

No momento em que escrevo esse texto, o corpo do Chorão está sendo velado. Na TV, passam imagens de “fãs” inconsolados pela morte de seu “ídolo”. Enquanto vejo essas imagens, escrevo esse texto e tomo café, penso no grande circo que o ser humano é capaz de fazer ao redor de um corpo sem vida. Hoje, fazemos isso com a ajuda da internet, mas essa comoção e o hábito de coberturas obituárias não é algo novo na história da humanidade.

Se eu me sinto mal por fazer parte disso, colaborar com as pidas e tudo mais? Não, não me sinto mal. Eu não era fã do Chorão ou do Hugo Chávez, nem tampouco fã de outras pessoas mais famosas que andaram morrendo nos últimos anos, mas não as queria ver mortas. Não tinha motivos. Não faço isso por estar satisfeito pela pessoa já não estar mais no mundo dos vivos. Não faço isso por estar feliz com a morte de pessoas que nunca tive nenhum contato. Não tinha motivos para desejar a morte delas e me sinto bem ao dizer que não tenho motivos para desejar a morte de ninguém.

Faço isso, pois estou, de certa forma (não a mais ortodoxa), homenageando a pessoa. Chorão, por exemplo; nunca fui fã dele, mas ele fez algo que marcou minha vida. Ele fez algo que marcou a vida de milhões de pessoas. Ele fez algo que deveria se orgulhar.

Ele, em toda sua glória e em meio a sua banda, fez a música tema da abertura de umas das melhores temporadas de Malhação.

Obrigado por isso Chorão, desculpe pelas piadas e cuidado para não cair de Skate.