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Um velho fone de ouvido

4 abr

No dia 23 de Outubro de 2013 eu escrevi, com samba no pé, sorriso no rosto e felicidade no coração, um post falando sobre uma nova aquisição: um fone de ouvido.

Hoje, dia 4 de Abril de 2016, depois de ter dado vários sinais de estar chegando sua hora, o fantástico fone de ouvido se foi.

Venho através dessa publicação declarar a todos que sofro. Não apenas por estar sendo obrigado a ouvir minhas músicas em fones lixo que vem junto com os celulares da Samsung. Sofro pela perda de um companheiro. Sofro pelas pessoas que assim como eu sofrem todo dia com isso. Talvez não estejamos nas estatísticas do jornal que seu pai lê ou no perfil engraçadinho de notícias que você segue no Twitter, mas existimos e nossa dor é maior que tudo.

Aonde estiver, Philips SHP2000, saiba que meu coração estará sempre com você e meus ouvidos sentirão falta do seu aconchego nas madrugadas frias de Sorocaba.

Te amei como poucas vezes fui capaz de amar, companheiro. Siga em paz.

Life, it seems, will fade away
Drifting further every day
Getting lost within myself
Nothing matters, no one else

I have lost the will to live
Simply nothing more to give
There is nothing more for me
Need the end to set me free

Things not what they used to be
Missing one inside of me
Deathly lost, this can’t be real
Cannot stand this hell I feel

Emptiness is filling me
To the point of agony
Growing darkness taking dawn
I was me, but now he’s gone

No one but me can save myself, but it’s too late
Now I can’t think, think why I should even try

Yesterday seems as though it never existed
Death greets me warm, now I will just say goodbye

 

O adeus a uma bicicletaria

27 jan

Tenho algumas histórias com bicicletas. Na maioria delas alguém sai atropelado e/ou com dentes quebrados (essa segunda parte, geralmente eu). Nos últimos anos estive fora desse mundo de catracas, correntes e borracha (BDSM?), mas quando era criança vivia montado em uma magrela (sim, sua mãe).

Nesse intervalo sem pedalar, percebi que estava sentindo falta da adorável e única sensação que uma pessoa só consegue ao raspar sua própria pele no asfalto. Fiz minhas pesquisas e comprei uma bicicleta. Na verdade, ganhei uma bicicleta. Sim, pois aparentemente voltei a ter 9 anos de idade e meus pais me deram ela de presente de aniversário. O curioso é que lembro muito claramente de minha mãe dizendo que “essa é a última bicicleta que vamos te dar, a próxima você já vai poder comprar com seu dinheiro” em um Natal de alguns bons anos atrás.

Certas coisas nunca mudam, mãe.

Buscando sempre evoluir minhas técnicas e de quebra desbloquear um achievement hipster, escolhi uma bicicleta fixa. O lance das bicicletas fixas é que a roda traseira irá sempre acompanhar o ritmo do pedal. Se você mexer um, mexe o outro. Se parar de mexer um, para de mexer o outro. Tem uma galera que tira os freios convencionais dessas bicicletas e passa a controlar ela nos pedais, já que você pode frear apenas diminuindo a velocidade das pedaladas. Eu não estou nesse nível, mas obrigado.

fixedarchiev

Nessas pesquisas que fiz já imaginei que nem todo mundo iria entender esse lance da bicicleta ser fixa, tanto é que nem costumo mencionar essa história de andar sem freio, mas também imaginei que não teria problemas se precisasse ir numa bicicletaria quando algo acontecesse.

A bicicleta foi entregue e decidi que eu mesmo iria montá-la. Em parte porque queria logo andar de bicicleta e em parte porque é sempre bom aproveitar uma oportunidade de utilizar ferramentas.

Montei, andei um pouco, curti, mas sabia que seria melhor levar para alguém que entende dar uma olhada e conferir se estava tudo certo antes de sair num rolê de verdade com ela. Quando ganhei minha primeira bicicleta, meu pai mesmo que a montou e também decidiu levar numa bicicletaria para ver se estava tudo certo antes de me entregá-la (obrigado por tentar garantir minha segurança em cima de uma bicicleta, pai (não funcionou, caí várias vezes)).

bike queda

Mas foi aí que tudo começou.

Meu pai não conhecia a bicicletaria do bairro. Levou lá pois era a única opção. Justamente por isso, sempre que algo acontecia, era lá que íamos para resolver. Acabamos confiando no dono da bicicletaria. Idal era o nome dele. Era Idal que sabia o jeito certo de lidar com a bicicleta.

Como a vida não é feita apenas de sorrisos, em um dado momento recebemos a notícia de que a bicicletaria iria se mudar. Iria para o bairro vizinho. Não tão longe, mas o suficiente para se pensar duas vezes caso a bicicleta estivesse com problemas e você tivesse que ir andando até lá.

Nos mantivemos fiéis a Idal e sua bicicletaria. Superamos essa dificuldade e continuamos indo até lá. Anos depois troquei de bicicleta e nada mudou. Continuamos indo até onde a nossa bicicletaria estivesse.

Aos poucos, por pressão da vida e das responsabilidades que ela nos impõe, fui parando de andar de bicicleta como antes e quando percebi, ela estava enferrujando no quintal de casa. Até fiz uma grande tentativa de voltar (parecia o Ronaldo voltando ao futebol depois daquela lesão no joelho). Fui na bicicletaria, o Idal fez festa, conversamos e troquei algumas peças, mas dias depois um dos pneus furou e voltei a desanimar. Mais uma vez, fiquei longe das bicicletas.

Até dias atrás.

Montado em minha fixa, tal qual Gandalf montado em Scadufax cavalgando pela Terra-Média, fui em direção a bicicletaria do Idal. Ele iria fazer a revisão, talvez eu trocasse algo e tudo voltaria a ser lindo. Eu estava de volta.

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Era o que eu pretendia. A vida tinha uma ideia diferente.

Cheguei na frente da bicicletaria e a encontrei fechada. “Deve estar almoçando”, pensei. Decidi esperar um pouco. Os minutos se passaram e nada acontecia. Decidi investigar e cheguei perto do portão. Vi que a bicicletaria tinha funcionado ainda naquele dia, pois algumas ferramentas estavam no chão e um rádio estava ligado lá dentro. Chamei pelo Idal. Nada. Voltei a chamar, dessa vez mais alto. Ele apareceu.

Demorou alguns segundos, mas me reconheceu. Abriu um sorriso e me recebeu bem. Falou que teve que resolver algo na chácara que ele comprou fora da cidade, que tinha voltado 30 minutos antes e que tinha ido buscar algo nos fundos da bicicletaria. Conversamos um pouco, falei da bicicleta, ele deu uma olhada, gostou, ficou intrigado quanto ao lance dela ser fixa, expliquei para ele, mas continuou achando estranho. Tive a impressão de que ele não fez esforço para entender. Só ouviu por educação. Não ajudou nada o fato dele não ter dado muita importância quando falei que queria uma revisão na bicicleta. Deu uma olhada por cima e falou que eu tinha montado tudo certo, que não precisava de revisão. Estranhei. Uma olhada superficial não é o bastante para você poder dizer uma coisa dessas. Tem muita coisa que pode estar OK por fora e ainda assim montada errada. Não gostei disso.

Troquei uma peça barata, conversamos um pouco mais e descobri que a bicicletaria não era mais a única fonte de renda dele. Ele tinha arrumado um outro emprego. A bicicletaria tinha se tornado sua segunda opção de renda. Quando ele falou isso, tudo fez sentido. A bicicletaria fechada, a falta de interesse, a aparente pressa por se livrar de mim…

Fiquei ainda mais um tempo lá, me despedi e fui embora. Magoado. Com um vazio no peito e incertezas na cabeça. Fui pedalando devagar até chegar em casa, mas ao chegar, já tinha tomada uma decisão: iria trocar de bicicletaria. Não iria dar para continuar indo na bicicletaria do Idal depois de ver que ele já não se importava mais.

Foi aí que outra dúvida surgiu: qual bicicletaria se tornaria minha bicicletaria oficial?

Tinha uma perto de casa. Depois que o Idal foi embora, criou-se um vácuo de poder no bairro, um cara aproveitou isso e abriu seu bicicletaria lá. Confesso que nunca fui muito com a cara dele. As únicas vezes que eu tinha ido até lá foi para calibrar os pneus e nunca dei chance para que uma relação fosse construída. Isso foi antes de tudo mudar. Fiquei dias avaliando opções e tentando descobrir qual seria a melhor opção de bicicletaria.

Num belo dia, tive um problema no pedivela e resolvi arriscar nessa bicicletaria do meu bairro. Cheguei lá, expliquei a situação, o cara se mostrou interessado, fez vários comentários sobre a bicicleta, me perguntou um monte de coisa e fez um bom trabalho por um preço razoável. Me ganhou. Alguns outros problemas apareceram e todos eles foram prontamente resolvidos por ele.

Desde então, estamos numa relação. Muito dinheiro já foi gasto para que eu pensasse em mudar de bicicletaria nesse momento. Não que precisasse, já que ele está dando conta.

o nome dela e Bi

o nome dela e Bi

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Ainda um tanto quanto chateado por depois de tanto tempo ter que mudar de bicicletaria, mas animado com o futuro dourado que vejo pela frente, sigo pedalando com força nas pernas e um sorriso no rosto.

 

Preciso de mais pedras

17 nov

Quando mais jovem, dediquei muitas horas a jogar Age of Empires.

O PC que eu tinha não era bom (isso ainda vale para os dias de hoje) e não rodava muitos jogos (isso também vale para os dias de hoje). Age of Empires felizmente rodava lindamente.

Eu gostava do II, mas uma hora cansei dele, pedi para meu pai comprar o III, percebi que o II era muito melhor e percebi que na verdade não tinha cansado do II, não. Voltei a jogá-lo e deixei o III de lado.

Muitos impérios foram construídos e destruídos. Incontáveis árvores foram derrubadas e rios de sangues foram formados. Flechas cobriram o sol e valentes soldados lutaram na sombra.

Existem jogadores que logo no começo já focam em fazer um exército e atacar enquanto seus inimigos ainda estão fracos. Não é uma estratégia ruim, mas não é meu jeito de jogar.

Primeiro faço o cabo da espada. Quando o cabo estiver bom e firme, eu parto para a lâmina.

Em outras palavras: crio um contingente de aldeões, peço para eles devastarem tudo que for possível e quando as florestas deixarem de existir, o rio não tiver mais peixe, as minas de ouro e pedra estiverem vazias e quando não for possível andar pelas minhas terras sem que se pise em uma plantação, eu ataco.

Guerra não é algo barato. É necessário o tipo de apoio e segurança que só a riqueza pode oferecer.

Semana passada aproveitei que Age of Empires II em HD estava em promoção na Steam e o comprei. Fui jogar um pouco só para matar a saudade e quando dei por mim estava sendo atacado por duas frentes e por dois inimigos diferentes (imagino que eles ficaram impressionados com o quão promissora minha sociedade estava e tenham feito uma aliança por medo).

Eu não poderia só sair do jogo. Eu teria que vencer ou morrer tentando. Morri tentando.

Culpo as pedras. Ou a falta delas, pelo menos.

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O mapa me jogou num lugar com apenas um lugar com pedras por perto. Se quisesse mais, teria que entrar fundo demais nas florestas do inimigo e seria arriscado.

Sem pedras, pensei em usar o mercado para comprar por lá, pois eu precisava das pedras se quisesse construir um castelo e sempre quero construir castelos, pois são castelos e gosto de castelos.

Revoltado com o preço que estavam me cobrando por 100 unidades de pedra, desisti e até pensei em excluir o mercado para mostrar o quão revoltado estava, mas lembrei que no ritmo que as coisas estavam, o mercado seria destruído de qualquer forma. Eu estava sendo atacado mais uma vez.

Bati o olho e altamente treinado que sou, já vi que não iria vencer mais aquela leva de inimigos. Mandei construir mais barcos, movi meu pequeno, porém glorioso, exército por uma rota diferente, evitando o exército inimigo, e ataquei as terras deles enquanto eles atacavam as minhas. Mandei meus barcos darem a volta e atacarem tudo o que pudessem na costa do adversário.

Por um momento achei que fosse funcionar, mas o inimigo era maior e mais firme. Conseguiram destruir mais do que meu exército no mesmo tempo. Se eu tivesse castelos, teria sido diferente. Castelos são muito mais resistentes que as outras construções.

E para se ter castelo, é necessário ter pedras.

Então, numa regra de três rápida, se eu tivesse mais pedras poderia ter levado essa.

 

 

A lenda de Rafoel

17 out

Eu tenho um amigo que se chama Rafoel.

Nos tempos de outrora, Rafoel não tinha dinheiro, gostava de música e tinha acesso a internet. Do meu ponto de vista como amigo, Rafoel fez algo imperdoável. Na época ele não percebeu a gravidade de seus atos, mas posteriormente, súbita como uma lâmina vindo por baixo numa parede de escudos, a realidade o atingiu.

Rafoel baixou músicas ilegalmente. Eu o repreendi por isso, mas o estrago já estava feito.

Rafoel ficou ouvindo suas músicas e teve grandes momentos de felicidade com elas, porém um álbum em particular continha algo especial. A última música estava corrompida (Rafoel foi atrás de várias outras versões para poder confirmar isso) e tinha uma falha num solo de guitarra mais para o final.

A música era “Damage, Inc.” e o álbum era Master Of Puppets.


Veja bem, Rafoel acha esse álbum tão bom que segundo uma conversa que tivemos em algum momento sublime de nossa bela amizade, “é a prova material de que existe um deus e ele nos quer o bem”. Obviamente não foram poucas as vezes que Rafoel ouviu esse álbum. Eu poderia até arriscar um português mais rebuscado e dizer que Rafoel chafurdou na ilegalidade.

Mesmo percebendo a falha na última música, Rafoel não baixou o álbum novamente. Isso seria repetir um erro e Rafoel não queria ganhar mais estrelas e aumentar seu nível de procurado. Baixar o álbum uma vez foi o bastante para ele. Se estava corrompido, ele apenas teria que lidar com isso.

Conhecendo aquele jovem tão bem quanto conheço, Rafoel até pode ter interpretado que essa falha da música foi proposital. Uma forma de punição do universo, talvez.

Wyrd bið ful ãræd.

A vida as vezes nos pega de surpresa e acaba com coisas que pensávamos ser eternas. Rafoel e eu tivemos discussão sobre qual seria a cena mais engraçada de The Office, guardamos mágoa e acabamos nos distanciando. Recentemente após ele escapar da morte, Rafoel e eu voltamos a conversar. De início, muito timidamente, mas com o tempo acabamos acertando nossos *ponteiros.

Entre troca de selfies e palavras bonitas, perguntei a Rafoel se ele ainda ouvia Master Of Puppets. Rafoel respondeu que “sim” e completou dizendo que “seria estupidez parar de ouvir sons de uma beleza arrebatadora”. Em seguida, Rafoel me disse que tinha testado um desses serviços de streaming e depois de ter certeza de que era bom, fez uma assinatura, adicionou coisas incríveis em sua biblioteca e apagou todos seus arquivos ilegais.

Gosto de pensar que Rafoel percebeu o tamanho de seu erro poucos segundos depois de terminar de eliminar os arquivos ilegais e então gritou assustado enquanto corria nu pela casa, mas não tenho provas disso.

Acontece que por ter sido um arquivo corrompido durante o download, provavelmente aquele mp3 de “Damage, Inc.” era único. Ao eliminar ele do computador, Rafoel fatalmente o eliminou de sua vida.

Master Of Puppets nunca mais foi o mesmo. De maneira alguma se tornou inferior, claro, mas com toda a certeza  se tornou menos mágico.

A falha num solo de guitarra mais para o final da música nunca mais será ouvida, mas Rafoel jurou para mim que tampouco será esquecida. Sempre que ouve o álbum e chega na parte onde deveria estar a falha,  Rafoel fecha os olhos tal qual um velho guerreiro em sua fortificação na costa da Nortúmbria relembrando de seus dias de glória quando era jovem, forte, rápido e temido. Rafoel se lembra da falha e sorri.

Infelizmente não pode ficar tanto tempo nessa nostalgia, pois por ser a última música do álbum, ele logo precisa escolher outra coisa para ouvir.

É o jeito de Rafoel lidar com problemas: escolhe o próximo com sabedoria e lida com ele.

 

 

 

Piores momentos de uma vida

26 mar

Peguei café, voltei para a mesa e também voltei para o trabalho.

Deixei o café esfriar e também entrar em contato com o ar (sim, pois todos sabem que dentro de uma garrafa térmica só existe café e vácuo).

Depois de algum tempo, decidi que estava na hora de saborear o cafézinho pré-almoço.

Dei um gole.

Era o café sem açúcar. Inverteram as garrafas hoje.

Meu dia acabou. Tudo o que quero no momento é deitar e chorar até dormir um sono sem sonhos, pois nem na realidade paralela de alucinações e criatividade sem limites que existe na minha mente enquanto durmo, quero continuar vivendo com isso. É uma sensação ruim, sabe? Um sentimento cinza. Uma vontade errada. Uma lembrança estranha.

Enfim, mais um momento para a lista de piores momentos da minha vida.

Vou falar para meu chefe que não consigo mais continuar trabalhando hoje. Expediente encerrado.

 

Um dos pulos do Gessinger

24 mar

“Trago sempre comigo a lembrança de um show desse ano. Mais na boca do que na memória: um dente de ouro. Tocávamos na Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. Lugar mágico, show ao ar livre, um mar de gente. No fim da primeira música, subi no praticável da bateria. Adorava me jogar de lá, a sensação de aterrissar no exato momento da última nota da canção é muito boa. Os saltos viraram uma marca dos shows, rendendo, até hoje, ótimas fotos. Nesse dia, não me dei conta de que havia um tirante de ferro ligando duas colunas, acima da bateria. No voo, dei, literalmente, de cara com o ferro. Quando pousei, uns três ou quatro dentes estavam esmigalhados. Cuspi os cacos e, não sei como, consegui levar o show até o fim. Só a adrenalina do palco explica. Lembro de pedir para reposicionarem uma das câmeras de TV que cobriam o show, a que estava no lado atingido. Nunca fiquei nu na frente de milhares de pessoas, suponho que a sensação não deva ser pior do que aparecer sem dentes.

No avião, voltando para casa, a dor era terrível. Para piorar a situação, era domingo e eu havia combinado de participar de um show do Lulu Santos. Sem chance de passar num dentista antes. Não queria cancelar, pois já havia rolado uns mal-entendidos entre a gente. Seria bacana participar do show. Toquei Parabólica, numa versão desproporcionalmente emocionada, pois, cada que vez que passava ar pelos dentes quebrados, eu via estrelas.

Retirei esse trecho do “Pra Ser Sincero – 123 Variações Sobre um Mesmo Tema”, um livro massa do Humberto Gessinger.

Por mais errado que seja, eu confesso que achei legal saber que ele conhece a dor de quebrar alguns dentes. Admiro o cara, acho foda os sons que ele faz, quando ele está no baixo as músicas parecem ter um outro sentido e até mesmo com blog ele manda bem. Legal poder compartilhar com o cara a horrível sensação de respirar com dentes quebrados. Poucas pessoas podem dizer que tem esse tipo de ligação com um artista que admiram.

No meu caso, quebrei alguns dentes ao cair de cara no asfalto depois de perder o controle da bicicleta. Isso renderá um post em algum momento da minha vida, espero.

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Mousepad

20 mar

Desde que migrei do desktop para o notebook estou usando mousepads improvisados. Já usei jornal de Domingo, já usei um livro de Java (que por ser da grossura de um videocassete me obrigava a deixar o braço numa postura escrota quando estivesse usando o mouse), já usei o boleto de alguma coisa que comprei no Submarino e já até usei revista de mulher pelada.

Recentemente, estava usando um conjunto de folhas sulfites.

Como podem ver, sou um cara simples. Não preciso de luxo para acessar a internet e ficar rindo de pessoas sendo imbecis ou assistindo vídeos da Carreta Furacão.

Precisei das folhas sulfites para fazer uns exercícios de Física e momentaneamente me vi sem mousepad. Aproveitei que estava no clima estudo, fiquei de pé na cadeira, peguei alguma folha sulfite já usada que estivesse guardada (não estava lá jogada de qualquer forma, juro) e elegi ela como meu novo mousepad.

A folha em questão era de algum exercício de Métodos Numéricos que fiz no semestre passado.

não, não é o mesmo mouse que explodiu na minha mão

não, não é o mesmo mouse que explodiu na minha mão

 

Aparentemente, sou estudioso, mas menos do que deveria.

 

 

A aranha e a agenda

23 jan

O ser humano é incrível. É fascinante ver o quão capazes somos de realizar maravilhas da engenharia e ainda assim sofrermos o diabo quando aquela impressora do escritório faz o que as impressoras normalmente mais fazem de melhor: não funcionar.

Desde sempre passamos por testes de sobrevivência e continuamos aqui. Usando de tudo o que temos para sobreviver a grandes catástrofes, a grandes predadores e ao Windows Vista, somos hoje os donos de nosso próprio mundo e estamos tendo o privilégio de criar a raça superior que irá nos fatiar sem dó quando chegar a hora da raça humana ser destruída.

Quando desenvolvedores cometerem o mesmo erro de Tony Stark e criarem uma Inteligência Artificial superior e então ela começar a se replicar e máquinas com habilidades de um samurai saírem nas ruas com suas Katanas fatiando mendigos, meu nome será lembrado e pelos 12 segundos que os humanos conseguirem sobreviver ao ataque, as pessoas pensarão em mim com esperança.

Depois todos estaremos mortos e esquecidos. Mas mesmo assim, todos saberão que um dia fui exposto a um grande perigo, lutei pela minha vida e sobrevivi.

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A história se tornou lenda, a lenda se tornou mito…

Era um daqueles dias que você não espera nada demais (esses são os dias mais perigosos). Estava sentado na frente do computador, muito concentrado em simular estar concentrado no trabalho e sozinho na sala.

Ao menos, era o que eu pensava.

Meus sentidos apurados me avisaram que eu estava em uma situação de risco e que se não quisesse ter um destino pior que o do garoto do vídeo do “Pintinho Piu”, deveria me preparar.

Entrei em modo Batalha e passei a me concentrar no meu lado esquerdo, já que as coordenadas que meus sentidos tinham me passado indicavam que o perigo vinha dali. Olhei e nada no mundo teria me preparado para o que vi.

surprise, mothafocka

surprise, mothafocka

 

Uma aranha estava pendurada do meu lado.

Não sei quais eram as motivações dela, não sei quem a enviou e não sei o comprimento da teia que ela precisou fazer para descer lá do teto até mim, mas ela estava ali e eu precisava lidar com essa situação de uma maneira muito adulta.

Em 0,3 segundos eu estava de pé e com metros de distância entre mim e a aranha. Respirei fundo, avaliei a situação e pensei no que faria em seguida. Eu estava sozinho na sala, então não teria que me preocupar em explicar a alguém o que estava acontecendo e em meio a essa explicação a aranha aproveitar meu momento desconcentrado e me atacar (vários personagens já morreram por dar essa bobeira). Só precisava me focar em resolver aquilo para poder voltar para a minha mesa.

Não me orgulho disso, mas percebi que precisava me livrar daquela aranha de uma vez por todas. Era isso ou ficar o resto da vida achando que a qualquer momento ela voltaria para terminar o serviço. Eu não teria mais nenhum momento de paz.

OK, eu já sabia o que precisava ser feito, agora precisava decidir como fazer isso.

Olhei ao redor procurando a resposta e meu cérebro bem treinado em questões estratégicas de tanto jogar Age Of Empires me deu uma resposta que ao mesmo tempo era fácil e desafiadora.

Fui até a mesa de um colega de trabalho, peguei uma agenda que ela usa para descrever o quão sem emoção são os dias dele, me encaminhei até minha mesa e parei perto de onde a aranha ainda estava pendurada. Eu estando de pé, ela estava pendurada mais ou menos na altura do meu peito.

Nesse momento, ela começou a subir. Os sentidos dela devem a ter avisado sobre o perigo que ela estava correndo. Foi um momento crucial para mim. Mais uma vez tive a chance de deixar ela escapar. Optei por não fazer. Prefiro não passar a vida olhando por cima do ombro em busca de um antigo inimigo.

Nesse momento, ela, surpreendentemente rápida, já tinha subido uma boa altura e estava por cima da minha cabeça. E então, fiz o que precisava ser feito.

Fechei os olhos, com a mão esquerda toquei no Mjölnir que carrego no pescoço e fiz uma prece rápida a Thor. Com a mão direita, abri a agenda e me preparei para tomar impulso no chão. Agora com as duas mãos na agenda, tomei impulso, pulei em direção a aranha e seguindo as orientações da minha mente acostumada a fazer contas nas aulas de Cálculo, fechei a agenda no exato momento em que a aranha estava entre as páginas.

foi algo assim

foi algo assim

 

Jamais me esquecerei do som. É um som que se estivesse no meu HD, eu nomearia o arquivo como “Estou_Em_Paz.mp3″ e o ouviria todo dia antes de dormir. Talvez tenha no Spotify.

Já de volta ao chão e com a missão cumprida, olhei fixamente para a agenda fechada e tomei a decisão de não abrir ela em busca da aranha morta. Foi por questão de respeito. Não preciso tão avidamente ver o cadáver de um inimigo. Saber que não preciso mais me preocupar com ele já me basta.

Joguei a agenda na mesa do cara e nunca disse a ele o que aconteceu.

 

Cuidado com minha orelha, mãe

7 dez

Eu não gosto de cortar cabelo. Tudo nessa tarefa é desagradável. Sair de casa, ir até um lugar desagradável, ser obrigado a manter conversas desagradáveis, ver pessoas desagradáveis, confiar sua vida a uma pessoa que geralmente você nem conhece de verdade, pagar por tudo isso e ainda ficar se coçando o resto do dia pelos fios de cabelo que entraram na sua roupa. Não é legal.

Infelizmente, ainda não consigo controlar essa parte do meu organismo e se eu não quiser que meu cabelo se enrole em meu pescoço enquanto durmo e me sufoque até a morte ou pior, que me confundam com um fã do Iron Maiden, preciso mantê-lo cortado.

Só que existe uma distância absurda entre meu cabelo estar me incomodando e eu criar coragem de ir cortá-lo. Entre um e outro, existe algo que chamo de “mãe, corta esse pedaço do meu cabelo aqui”.

Ela não gosta de fazer isso, mas é minha mãe e o amor que tem por mim a obriga a fazer coisas absurdas (como por exemplo, fazer arroz vegano para minha namorada vegana comer). Sempre reclama, mas sempre aceita cortar o meu cabelo.

Acabei de pedir para ela fazer isso. Numa parte um pouco mais complicada do corte, as lâminas da tesoura chegaram perigosamente perto da minha orelha esquerda. Meu cérebro treinado reagiu e mandou um:

 – Ow, cuidado aí. Não quero ficar igual aquele irmão do Zezé di Camargo e Luciano!

A vida é sensacional, não? Tudo o que sei sobre esse caso do irmão do Zezé di Camargo e Luciano (que aliás, estou tratando como se fossem uma única pessoa) se limita a um Linha direta que assisti quando era criança. Quem iria imaginar que anos depois eu faria uma referência a isso enquanto minha mãe cortava um pedaço do meu cabelo?

A vida é fantástica.

Sim, minha mãe riu.

 

 

Fiquem calmos. Minhas duas orelhas estão inteiras e perfeitas (diferente da sua mãe).

Um bloco falso, sim

2 nov

Tive que fazer um jogo para uma apresentação na faculdade. Como acabei programando todo o jogo, tive que arrumar um monte de bugs e aprendi que sempre (sempre!) vai aparecer mais um quando outra pessoa estiver jogando.

O esquema era deixar o jogo rodando num computador e quem olhasse, se interessa e quisesse jogar, simplesmente faria isso.

Um garoto de uns 10-12 anos estava passando, olhou para o banner do jogo, se encantou e quis jogar. Rapidamente passei os comandos e disse qual era o objetivo. Na metade do jogo, ele foi pular de uma plataforma para outra e o personagem caiu. Eu estava assistindo ele jogar e temia que isso fosse acontecer. Sabia que por algum motivo, aquilo não estava funcionando como deveria e que o personagem “cair” da plataforma sem motivo algum era algo que poderia acontecer.

Esperei a reação do garoto praticamente encolhido no meu canto e desde já morrendo de vergonha. Me surpreendi.

– Porra, cara! Um bloco falso! Dahora! 😀

A inocência é algo incrível. Eu já estava quase indo me desculpar com o garoto por ter permitido que aquilo acontecesse e estragasse a experiência dele com o jogo, quando ele vira pra mim e faz um comentário desse em tom de elogio pressupondo que fiz aquilo para “enganar” quem estivesse jogando.

Ele realmente pareceu ter gostado do jogo. Fiquei imensamente contente (difícil usar essa palavra, mas é adequada para o momento) com isso.

Obrigado, garoto.