Cintada na locadora

19 ago

Era época de férias escolares e eu e um amigo acordamos cedo, nos encontramos na rua, contamos as moedas que tínhamos e fomos até a locadora. A locadora abria às 9:30hs da manhã e tivemos que esperar uns 10 minutos para o dono chegar e começar a abrir ela. Esperar esses 10 minutos não era problema algum. Era até uma espécie de ritual de preparação.

Sempre tinha um grupo de moleques com caras amassadas de sono e com moedas contadas no bolso esperando a oportunidade de jogar mais uma sagrada hora de videogame. Ficávamos conversando sobre como fazer gols de falta no Winning Eleven, qual o melhor código para o GTA: San Andreas ou qual o carro mais rápido no Underground 2. Preparávamos uns aos outros para o que estava por vir.

Lembro-me desse dia como uma das mais doces lembranças que tenho dessa fase “locadora” da minha vida.

A locadora foi aberta (ajudamos o cara a puxar os portões, aliás), entramos e fizemos uma fila na frente do balcão. Ele anotou nossos nomes, horários e jogos escolhidos. Preparou tudo e o ambiente explodiu em sons dos jogos, gritaria e barulho de salgadinhos de qualidade duvidosa sendo vorazmente mastigados.

Normalmente, quando o jogo escolhido era futebol, corrida ou tiro, eu e meu amigo dividíamos o mesmo console e juntávamos nossas moedas para conseguir mais horas de diversão, mas quando o jogo em questão era GTA: San Andreas, cada um ficava em sua tela e explodia, matava e barbariza o quanto quisesse. Isso era GTA.

Outros dos moleques estavam jogando futebol, outros Guitar Hero (quase certeza que a música era Sweet Child O’mine) e outros estavam jogando algum dos Medal of Honor. Éramos felizes, faceiros, estávamos nos divertindo e então aconteceu.

Um grito. Alto, com autoridade e raiva. Gelou cada dedo responsável por botões diferentes do joystick. Eu não tenho vergonha em dizer que senti medo ao ouvir o tal grito e ouso dizer que não fui o único. Era um grito de mãe.

calma mãe

calma mãe

Rapidamente, com habilidade e elegância, pausei o GTA e olhei para trás, lá na entrada da locadora. Com minha audição periférica (isso existe?), percebi que todos os outros jogos também foram pausados e o silêncio prevaleu, outra vez. Sim, era uma mãe. Felizmente, não a minha. O mesmo não pôde dizer um dos garotos que estava jogando futebol.

Com passos rápidos, pesados e precisos, a tal mãe foi até o tal garoto e o pegou pela gola da camisa. Feito o Zorro empunhando um chicote, ela lhe deu uma cintada nas pernas que tenho certeza que ainda hoje permanece a marca. Estava tomada pela raiva e continuou as cintadas. O garoto, com medo de apanhar mais, vergonha por apanhar na frente dos colegas e confusão por não saber o que fazer, nada fez e continuou apanhando. Acredito que no total tenha sido algo entre 17 e 21 cintadas. Não pude contar com perfeição porque estava preocupado por estar gastando minha hora na locadora assistindo um moleque apanhar de cinto da mãe ao invés de jogar.

Tão barulhenta quanto chegou, ela se foi e levou o filho junto. Não me lembro o que aconteceu com o videogame que ele estava jogando. Muito provavelmente foi desligado, mas há quem acredite que o espaço foi isolado e se transformou num monumento histórico.

museu1

Dias depois ficamos sabendo que o garoto tinha acordado, pedido um dinheiro para a mãe no pretexto de ir comprar pão e usado o tal dinheiro para jogar um futebolzinho na locadora. Depois desse dia, sempre pedi dinheiro honestamente para meus pais.