Cuidado com minha orelha, mãe

7 dez

Eu não gosto de cortar cabelo. Tudo nessa tarefa é desagradável. Sair de casa, ir até um lugar desagradável, ser obrigado a manter conversas desagradáveis, ver pessoas desagradáveis, confiar sua vida a uma pessoa que geralmente você nem conhece de verdade, pagar por tudo isso e ainda ficar se coçando o resto do dia pelos fios de cabelo que entraram na sua roupa. Não é legal.

Infelizmente, ainda não consigo controlar essa parte do meu organismo e se eu não quiser que meu cabelo se enrole em meu pescoço enquanto durmo e me sufoque até a morte ou pior, que me confundam com um fã do Iron Maiden, preciso mantê-lo cortado.

Só que existe uma distância absurda entre meu cabelo estar me incomodando e eu criar coragem de ir cortá-lo. Entre um e outro, existe algo que chamo de “mãe, corta esse pedaço do meu cabelo aqui”.

Ela não gosta de fazer isso, mas é minha mãe e o amor que tem por mim a obriga a fazer coisas absurdas (como por exemplo, fazer arroz vegano para minha namorada vegana comer). Sempre reclama, mas sempre aceita cortar o meu cabelo.

Acabei de pedir para ela fazer isso. Numa parte um pouco mais complicada do corte, as lâminas da tesoura chegaram perigosamente perto da minha orelha esquerda. Meu cérebro treinado reagiu e mandou um:

 – Ow, cuidado aí. Não quero ficar igual aquele irmão do Zezé di Camargo e Luciano!

A vida é sensacional, não? Tudo o que sei sobre esse caso do irmão do Zezé di Camargo e Luciano (que aliás, estou tratando como se fossem uma única pessoa) se limita a um Linha direta que assisti quando era criança. Quem iria imaginar que anos depois eu faria uma referência a isso enquanto minha mãe cortava um pedaço do meu cabelo?

A vida é fantástica.

Sim, minha mãe riu.

 

 

Fiquem calmos. Minhas duas orelhas estão inteiras e perfeitas (diferente da sua mãe).