O adeus a uma bicicletaria

27 jan

Tenho algumas histórias com bicicletas. Na maioria delas alguém sai atropelado e/ou com dentes quebrados (essa segunda parte, geralmente eu). Nos últimos anos estive fora desse mundo de catracas, correntes e borracha (BDSM?), mas quando era criança vivia montado em uma magrela (sim, sua mãe).

Nesse intervalo sem pedalar, percebi que estava sentindo falta da adorável e única sensação que uma pessoa só consegue ao raspar sua própria pele no asfalto. Fiz minhas pesquisas e comprei uma bicicleta. Na verdade, ganhei uma bicicleta. Sim, pois aparentemente voltei a ter 9 anos de idade e meus pais me deram ela de presente de aniversário. O curioso é que lembro muito claramente de minha mãe dizendo que “essa é a última bicicleta que vamos te dar, a próxima você já vai poder comprar com seu dinheiro” em um Natal de alguns bons anos atrás.

Certas coisas nunca mudam, mãe.

Buscando sempre evoluir minhas técnicas e de quebra desbloquear um achievement hipster, escolhi uma bicicleta fixa. O lance das bicicletas fixas é que a roda traseira irá sempre acompanhar o ritmo do pedal. Se você mexer um, mexe o outro. Se parar de mexer um, para de mexer o outro. Tem uma galera que tira os freios convencionais dessas bicicletas e passa a controlar ela nos pedais, já que você pode frear apenas diminuindo a velocidade das pedaladas. Eu não estou nesse nível, mas obrigado.

fixedarchiev

Nessas pesquisas que fiz já imaginei que nem todo mundo iria entender esse lance da bicicleta ser fixa, tanto é que nem costumo mencionar essa história de andar sem freio, mas também imaginei que não teria problemas se precisasse ir numa bicicletaria quando algo acontecesse.

A bicicleta foi entregue e decidi que eu mesmo iria montá-la. Em parte porque queria logo andar de bicicleta e em parte porque é sempre bom aproveitar uma oportunidade de utilizar ferramentas.

Montei, andei um pouco, curti, mas sabia que seria melhor levar para alguém que entende dar uma olhada e conferir se estava tudo certo antes de sair num rolê de verdade com ela. Quando ganhei minha primeira bicicleta, meu pai mesmo que a montou e também decidiu levar numa bicicletaria para ver se estava tudo certo antes de me entregá-la (obrigado por tentar garantir minha segurança em cima de uma bicicleta, pai (não funcionou, caí várias vezes)).

bike queda

Mas foi aí que tudo começou.

Meu pai não conhecia a bicicletaria do bairro. Levou lá pois era a única opção. Justamente por isso, sempre que algo acontecia, era lá que íamos para resolver. Acabamos confiando no dono da bicicletaria. Idal era o nome dele. Era Idal que sabia o jeito certo de lidar com a bicicleta.

Como a vida não é feita apenas de sorrisos, em um dado momento recebemos a notícia de que a bicicletaria iria se mudar. Iria para o bairro vizinho. Não tão longe, mas o suficiente para se pensar duas vezes caso a bicicleta estivesse com problemas e você tivesse que ir andando até lá.

Nos mantivemos fiéis a Idal e sua bicicletaria. Superamos essa dificuldade e continuamos indo até lá. Anos depois troquei de bicicleta e nada mudou. Continuamos indo até onde a nossa bicicletaria estivesse.

Aos poucos, por pressão da vida e das responsabilidades que ela nos impõe, fui parando de andar de bicicleta como antes e quando percebi, ela estava enferrujando no quintal de casa. Até fiz uma grande tentativa de voltar (parecia o Ronaldo voltando ao futebol depois daquela lesão no joelho). Fui na bicicletaria, o Idal fez festa, conversamos e troquei algumas peças, mas dias depois um dos pneus furou e voltei a desanimar. Mais uma vez, fiquei longe das bicicletas.

Até dias atrás.

Montado em minha fixa, tal qual Gandalf montado em Scadufax cavalgando pela Terra-Média, fui em direção a bicicletaria do Idal. Ele iria fazer a revisão, talvez eu trocasse algo e tudo voltaria a ser lindo. Eu estava de volta.

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Era o que eu pretendia. A vida tinha uma ideia diferente.

Cheguei na frente da bicicletaria e a encontrei fechada. “Deve estar almoçando”, pensei. Decidi esperar um pouco. Os minutos se passaram e nada acontecia. Decidi investigar e cheguei perto do portão. Vi que a bicicletaria tinha funcionado ainda naquele dia, pois algumas ferramentas estavam no chão e um rádio estava ligado lá dentro. Chamei pelo Idal. Nada. Voltei a chamar, dessa vez mais alto. Ele apareceu.

Demorou alguns segundos, mas me reconheceu. Abriu um sorriso e me recebeu bem. Falou que teve que resolver algo na chácara que ele comprou fora da cidade, que tinha voltado 30 minutos antes e que tinha ido buscar algo nos fundos da bicicletaria. Conversamos um pouco, falei da bicicleta, ele deu uma olhada, gostou, ficou intrigado quanto ao lance dela ser fixa, expliquei para ele, mas continuou achando estranho. Tive a impressão de que ele não fez esforço para entender. Só ouviu por educação. Não ajudou nada o fato dele não ter dado muita importância quando falei que queria uma revisão na bicicleta. Deu uma olhada por cima e falou que eu tinha montado tudo certo, que não precisava de revisão. Estranhei. Uma olhada superficial não é o bastante para você poder dizer uma coisa dessas. Tem muita coisa que pode estar OK por fora e ainda assim montada errada. Não gostei disso.

Troquei uma peça barata, conversamos um pouco mais e descobri que a bicicletaria não era mais a única fonte de renda dele. Ele tinha arrumado um outro emprego. A bicicletaria tinha se tornado sua segunda opção de renda. Quando ele falou isso, tudo fez sentido. A bicicletaria fechada, a falta de interesse, a aparente pressa por se livrar de mim…

Fiquei ainda mais um tempo lá, me despedi e fui embora. Magoado. Com um vazio no peito e incertezas na cabeça. Fui pedalando devagar até chegar em casa, mas ao chegar, já tinha tomada uma decisão: iria trocar de bicicletaria. Não iria dar para continuar indo na bicicletaria do Idal depois de ver que ele já não se importava mais.

Foi aí que outra dúvida surgiu: qual bicicletaria se tornaria minha bicicletaria oficial?

Tinha uma perto de casa. Depois que o Idal foi embora, criou-se um vácuo de poder no bairro, um cara aproveitou isso e abriu seu bicicletaria lá. Confesso que nunca fui muito com a cara dele. As únicas vezes que eu tinha ido até lá foi para calibrar os pneus e nunca dei chance para que uma relação fosse construída. Isso foi antes de tudo mudar. Fiquei dias avaliando opções e tentando descobrir qual seria a melhor opção de bicicletaria.

Num belo dia, tive um problema no pedivela e resolvi arriscar nessa bicicletaria do meu bairro. Cheguei lá, expliquei a situação, o cara se mostrou interessado, fez vários comentários sobre a bicicleta, me perguntou um monte de coisa e fez um bom trabalho por um preço razoável. Me ganhou. Alguns outros problemas apareceram e todos eles foram prontamente resolvidos por ele.

Desde então, estamos numa relação. Muito dinheiro já foi gasto para que eu pensasse em mudar de bicicletaria nesse momento. Não que precisasse, já que ele está dando conta.

o nome dela e Bi

o nome dela e Bi

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Ainda um tanto quanto chateado por depois de tanto tempo ter que mudar de bicicletaria, mas animado com o futuro dourado que vejo pela frente, sigo pedalando com força nas pernas e um sorriso no rosto.