O gênio da locadora

12 ago

Eram tempos diferentes aqueles. Tempos de uma infância moleque, infância marota, infância de pés descalços, infância de raiz, infância de dois toques na bola… OK, não era tão diferente dos dias de hoje.

Eu tinha um SNES e o amava. Era um videogame incrível. Super Mario World, Mortal Kombat 3, Earthworm Jim, Mario Kart, Donkey Kong e vários outros títulos me garantiram muitas horas de diversão. Era massa e eu sabia disso, mas não estava satisfeito. O videogame do momento era o Playstation 2. Para a época, os gráficos eram incríveis e os jogos impressionantes e eu, assim como quase todos meus amigos e a maioria dos garotos do bairro, não tinha essa maravilha tecnológica. Eis que um jovem visionário percebeu o que estava acontecendo e mudou o comércio de nosso agradável bairro.

Ele se tornou uma lenda. Até hoje não se tem certeza quanto a real história, mas a versão mais plausível é a seguinte: um rapaz de 20 e poucos anos trabalhava em uma empresa e tinha um salário legal. Muito observador, ele percebeu que a demanda de PS2 no bairro era muito grande, mas poucos tinham o tal videogame, então por mais amigos que os donos do tal videogame tivessem e os convidasse para jogar nas suas casas, um bom numero de jovens rapazes e crianças não teriam acesso. Eram poucos PS2 para uma legião muito grande de moleques.

Eis que ele teve uma ideia sensacional: não se sabe o que ele precisou fazer para isso, mas conseguiu ser demitido. Era tudo um plano. Já há alguns anos naquela empresa, ele saiu de lá com uma boa quantia de dinheiro. Gastou tudo em prostitutas, maconha e litros de vodka de qualidade duvidosa? Não. Ele revolucionou o bairro.

Alugou um galpão, comprou umas mesas vagabundas, umas 8 TVs de 29″ e o mesmo número em PS2, vários jogos piratas e abriu a primeira locadora de videogames do bairro. Foi um sucesso. Ele ganhou muito dinheiro (ou era o que parecia para minha cabeça ainda infantil). Abria das 08:00 ás 22:00 e cobrava R$ 1,00 por hora jogada. Se você quisesse jogar, teria que agendar um horário com 24 horas antes. Ele foi um gênio.

era algo mais ou menos assim

era algo mais ou menos assim

 

Anos se passaram e o preço do Playstation 2 estava caindo. Num certo momento, o preço do videogame estava baixo o bastante para ser ridícula a ideia de ir numa locadora e pagar por hora jogada. Os anos mataram a ideia. Foi incrível enquanto durou. O auge da tal locadora foi lindo. Fecho os olhos e consigo ver a bagunça, sentir o cheiro de cigarro misturado com o cheiro de salgadinho, ouvir as narrações dos jogos de futebol e os gritos de incentivo da molecada. Foi massa.

 

Escrevi esse texto para expor o contexto sociológico do meu bairro naqueles tempos. Uns 8 (talvez 9) anos atrás. Futuramente (no próximo texto, provavelmente), contarei uma história massa que se passou dentro da tal locadora. Choro de rir só de pensar nela.