Queda na qualidade

15 out

Desde muito jovem sou fã de lanches de rua. Preferencialmente aqueles que são feitos dentro de uma van e com um mínimo de higiene, mas já abri exceções. Provei muitos de diferentes lugares e nunca fui traído.

Tive sorte de desde sempre ter tido um muito bom perto da minha casa. Sempre me orgulhei de ter a Dona Maria no meu bairro. Os lanches dela sempre foram um lindo brilho em meio a trevas. Feitos do jeito que eu gosto. Com isso, ela praticamente me alimentou durante toda minha vida (em troca de dinheiro).

Não ganhava pontos em apresentação ou no uso de carnes nobres, mas ganhava pontos de nostalgia, preço e sabor.

Anos se passaram e minha fidelidade para com o lanche de Dona Maria se manteve intacta, mas como aparentemente todos os meus heróis estão morrendo, tive que tomar uma decisão.

Dona Maria ao passar dos anos foi subindo o preço dos seus lanches. Nada fora do normal, a vida como ela é. O problema é que ela se tornou escrava do dinheiro e quando viu que não era mais possível subir o preço dos lanches sem perder seus clientes, tomou uma decisão que sacramentou o início do fim de seu reinado como melhor lanche de rua do bairro.

Tal qual Isildur, Dona Maria foi corrompida.

 

Dona Maria, em uma das piores decisões comerciais da história, decidiu reduzir o custo de preparo de cada lanche ao trocar os seus ingredientes habituais por versões mais baratas deles. Não funcionou, Dona Maria. Não funcionou.

Os lanches se transformaram. Não eram mais aqueles lanches que jogavam bola de pés descalços, com um sorriso no rosto e brilho nos olhos. Se tornaram lanches que não faziam questão de agradar ninguém. Se tornaram uma sombra dos grandes lanches que um dia já tinham sido. Se eu pagasse a mesma quantia em dinheiro e ao invés de pedir um lanche simplesmente me curvasse e mordesse a borda dos pneus de sua van, eu sairia mais feliz de seu estabelecimento.

A tristeza me invadiu. Perder esses lanches por si só já seria uma ideia terrível de se lidar, mas saber que isso só aconteceu por ganância, deixou tudo mais difícil.

Foi exatamente o mesmo sentimento de assistir o vocalista de uma de minhas bandas favoritas sucumbir ao uso de drogas pesadas e saber que ele não irá mais se recuperar. Foi o sentimento de ‘OK, essa parte da minha vida não existe mais. Preciso seguir sem ela.’.

Tive que ir atrás de outros lanches. Não para substituir, não. Isso não seria possível. Tive que ir atrás de outros lanches com a mentalidade de experimentar novas coisas.

Aquela parte da minha vida estava morta e eu nem pude me despedir. Dona Maria nem teve a decência de nos avisar de sua traição (não seria uma traição se ela avisasse, verdade). A ultima vez que comi um de seus lanches enquanto ainda tinham sua identidade, para mim, foi apenas mais uma vez. Não tinha ideia de que seria a ultima. Imagino que os lanches também não sabiam disso.

É como aquela ideia de que um dia você desceu do colo dos seus pais e nem eles e tampouco você sabiam que aquela era a ultima vez que isso acontecia.

Isso me enche de tristeza. Não tanto quanto os lanches de Dona Maria me enchiam de felicidade.